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Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo

23 de Julho de 2022

Viagem entre multiversos e a noção de tempo são temas que estão sendo abordados com uma certa frequência na cultura pop. Essa se tornou a estratégia dos estúdios de tornarem os filmes grandiosos e abismar os seus telespectadores. De alguma forma, está funcionando com o público geral, pois é um tipo de obra que explora a nossa imaginação por criar mundos ilimitados. E desde que traga uma experiência rica e positiva, não há nada de ruim nisso.


O filme da A24 tem uma de suas principais características não a sua história ou o seu drama; muitas vezes exagerado e pouco natural; mas sim a maneira como ele usa a sua metalinguagem e a dinamicidade do seu espaço-tempo para torná-la uma obra imprevisível e cheia de variáveis no meio do caminho. Esse exercício é muito bem trabalhado, porque além dele sempre estar numa crescente narrativa em cima de um ambiente frenético para o telespectador, tudo isso acaba sendo condicente com alguns “insights” que o longa quer passar.

Gosto de como é tratada a ideia do vazio, da ausência de qualquer senso moral e responsabilidade, e vejo isso como uma das principais âncoras da obra, que serve como um contraste entre a filha e a mãe. Apesar desse dilema não ser tão aprofundado e de só ter sido mostrado no final para não dizerem que se trata apenas de uma aventura dinâmica e sem substância, essas questões foram bem tratadas e condiz totalmente com a persona da Evelyn: uma personagem que tomou decisões pouco sensatas na sua vida, mas se sente na obrigação de arcar com as suas consequências do mundo real mesmo sem a certeza de tudo dar certo, enquanto a vilã quer estar num mundo no qual reina o vácuo de virtudes e de diferenças entre o certo e o errado (chocando-se com o niilismo, de certa forma). Isso me deixou surpreso, pois até soa como uma contradição: apesar de atravessar por diversos espaços, criar inúmeras possibilidades para a protagonista e até tornar atrativas essas viagens através dos exercícios sensoriais que eu mencionei antes, ela escolhe um caminho objetivo e cru, entendendo que o vazio e o que poderia ser são apenas uma forma de escapar do que realmente acontece na sua vida. É um paralelo genial, quase como um embate entre a filosofia de Platão e Aristóteles.


Não curti muito a figura do pai, além de ser um personagem que só está lá para ser usado como motor para a dinâmica da história, a voz do ator me irritou num nível estratosférico. E o drama é tão corrido e, às vezes, soa tão artificial, que alguns diálogos parecem ter saído de algum episódio do Power Rangers. Essa correria mesmo funcionando como um exercício sensorial, acabou pesando no fator dramático nesses momentos. Se os diretores tivessem cuidado com esses pesares, certeza que seria um grande filme de ficção científica, mas não deixa de ser uma obra bem divertida de se assistir, com uma mensagem reflexiva e muito bem contrastada com a metalinguagem.

​Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022): Perfil
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